Tentei ficar indiferente ao cometário e juro que fiz um esforço pra deixar passar, partindo do princípio que todas as pessoas tem sua opinião sobre o que quer que seja e que esta, deve portanto ser respeitada. Mas como trata-se de um assunto que me incomoda cada vez que é abordado, decidi expôr também a minha opinião.
Estou um pouco cansada de ouvir as pessoas falarem de Cazuza como uma referência negativa, como se gostar dele fosse traço de desvio de conduta ou pior, acreditando que sua postura e comportamento diante da própra vida fosse maior do que a recado que (penso eu) ele veio gritar exageradamente aos ouvidos da sociedade.
Os filmes, documentários e artigos não endeusam a pessoa do jovem Agenor de Miranda, atribuindo a ele predicados místicos ou que sejam passíveis de idolatria. Pelo contrário, mostram o gênio musical, poeta letrista e arranjador convivendo conflituosamente com o gênio humano tempestivo e explosivo da pessoa que existia por trás daquelas vestes escrachadas e provocativas.
Estes filmes, documentários e artigos, enfim, mostram sim os caprichos, o comportamento desafiador de um jovem que cresceu no meio musical brasileiro das décadas de 70 e 80, vivenciando toda a transformação de identidade cultural vivida pelo país durante a pós ditadura, filho de uma geração que enfrentou os primeiros tabus em prol da liberdade de expressão musical e comportamental em uma cidade como o Rio de Janeiro, que é até hoje um dos roteiros turísticos mais requisitados do país, onde a sociedade recebe o mundo todos os dias, tão sujeita a esse intercâmbio transformador e enriquecedor.
Aos 10 anos de idade, Cazuza já conhecia mais obras literárias do que é capaz de ler até o fim da vida qualquer universitário dessas instituições de ensino que temos hoje a disposição de uma sociedade que se diz preocupada com a moral e os bons costumes mas se presta a encenar um episódio tão vergonhoso como o do vestidinho rosa de Sao Bernardo Campo, no interior de Sâo Paulo.
Perceba que não estou apenas argumentando sobre a figura pública do artista Cazuza, mas também sobre o jovem Agenor de Miranda, filho de uma geração e fruto de uma sociedade que se perdeu no caminho ao tentar fazer tudo por seus filhos proporcionando confortos e facilidades de “uma vida melhor”, aspiração comum e compreensível quando se fala de pessoas que enfrentaram um momento extremamente complicado na formação da história da civilização, que defenderam seus ideais políticos, culturais e religiosos pagando o preço de sua insubordinação à repressão.
Quando o cantor Cazuza grita na canção se declarando um EXAGERADO, ele está alertando a sociedade de que alguma coisa naquele modo de agir estava errado. Ele talvez quizesse mostrar que não era através da permissividade excessiva e nem dos pricípios advindos do amor livre (hernaça comportamental da era hippie) ou tampouco das formas alternativas de preencher os espaços vazios deixados pela educação moderna das famílias que não tinham tempo e nem paciência para dedicar amor uma vez que de tão tomada pelo capitalismo desenfreado haviam aprendido a demonstrar afeto com pacotes de presentes.
Esse jovem queria gritar que precisava mesmo de uma ideologia pra viver pois a que lhe tinha sido apresentada não servia mais àquela geração coca-cola que estava surgindo, totalmente a mercê das modas ditadas pelo cinema americano e pobre de identidades e origens…. sem raízes, sem referências.
Cazuza ao menos conhecia Cartola e sabia apreciar simultaneamente com um ecletismo sem igual a Beatles e aos Novos Baianos. Me perguntei essa semana se os filhos da psicóloga que escreveu a crítica à pessoa do jovem Agenor de Miranda já ouviram Cartola alguma vez na vida.
O que mais me irrita nos rótulos impostos, o louco, o bicha, o promíscuo, o filho mimado é que esta sociedade que aponta o dedo não seja capaz de refletir sobre a sua contribuição e responsabilidade na formação de jovens como Cazuza. Na construção do caráter de pessoas que hoje infelizmente não tem nem a poesia e a música como refugio, uma vez que não dá pra ter momentos de encontro ou busca pessoal em melodias cuja letra diz “sota essa porra!!!” ou “senta, senta e rebola”.
Pensando assim até dá pra entender porque alguém acredita que um filme seria capaz de influenciar tanto a mentalidade das pessoas. A única explicação que encontro é a de que Cazuza estava certo: estávamos nos tornando seres humanos vazios… não parece ser tão diferente hoje.
Perdoem a frase mas, preciso mesmo dizer que antes de usar um texto fora do contexto, tomando-o como pretexto pra protestar é preciso ter essa consciência de que ainda há pessoas que lutam para mudar o que Cazuza dizia estar errado não como Mártir ou Profeta, mas como pessoa humana que acreditava que poderíamos ser mais e dar mais se fôsemos um pouco mais exagerados e menos passivos diante de nossa própria destruição.

