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Já parou pra pensar no valor da sua vida?
Gostaria de contar uns fatos…
Maria do Espírito Santo Ribeiro dos Santos era uma senhora de 51 anos, nascida no interior do Maranhão, família simples, humilde; sete filhos, sendo um deles, a Dayara, portadora de necessidades especiais, dependente integralmente de atenção e cuidados da mãe, uma vez que tem a mobilidade dos membros extremamente reduzida, não fala, não anda, não come, não toma banho, não faz nada sozinha a não ser sorrir.
Há 18 meses, Maria começou a sentir incômodos estomacais e muita dificuldade para se alimentar. Ao procurar a rede pública de saúde, recebeu alguns comprimidos de Ranitidina e Omeprazol, depois foi encaminhada a voltar pra casa. Os incômodos não cessaram e Maria retornou diversas vezes, buscando tratamento para as dores que sentia. Pela sua insistência, os médicos acabaram diagnosticando uma úlcera e gastrite, que poderiam ser de fundo nervoso (emocional) ou causadas por algum tipo de bactéria; o que também não foi investigado a fundo.
O tratamento receitado? Mais Ranitidina e Omeprazol.
Quando a Ranitidina deixou de ser eficaz contra as dores, novamente, por sua insistência, os médicos pediram uma endoscopia que demorou alguns meses para ser agendada. Depois da endoscopia, após não ter mais sucesso com medicação alguma para os sintomas do desconforto estomacal e ao perceber que a região abdominal começava a apresentar uma rigidez e inchaço fora do normal, decidiram pedir uma ultra-sonografia a fim de ter maior clareza de seu quadro clínico. Este exame também levou mais alguns meses para ser agendado.
Nesse ínterim, Maria continuou a sentir os desconfortos e cada vez que a dor se tornava insuportável voltava ao atendimento da rede pública de saúde com os seus exames em mãos para buscar novamente uma solução para seu problema.
Em setembro de 2008, já sem nenhum apetite, começou a restringir sua dieta, pois começava a sentir intolerância a certos tipos de alimentos. No mês seguinte, já havia limitado seu cardápio a apenas um item, o único que ainda conseguia consumir: água de côco.
Em novembro, Maria já tinha ficado completamente intolerante a água de côco e testava alternativas para alimentação que pudessem nutrir seu corpo já bem debilitado e bastante leve, uma vez que a dieta praticada fez seu corpo perder uma quantia considerável de peso. O inconveniente é que agora, além de restrições alimentares, ela começava a não suportar a digestão dos alimentos e, segundos após ingeri-los sentia ânsia de vômito eliminando do estômago todo alimento que pudesse ter ingerido.
Nessa fase, foram constantes as visitas às unidades de pronto atendimento próximas de sua residência. Porém, nessas visitas o tratamento era sempre o mesmo: Ranitidina e soro com Plasil, para cessar os enjôos. Quantas vezes não voltou pra casa mais debilitada do que quando chegou? Queixava-se da indiferença, dos maus tratos, da falta de atenção ao seu problema que cada vez ia se agravando sem ver solução alguma sendo proposta. Da última vez, em novembro, agendaram um retorno para dia 23 de dezembro com o objetivo de fazer uma avaliação do quadro e pedir exames para encaminhamento a possível cirurgia, de acordo como que fosse apontado nos exames.
No dia 03 de dezembro, Maria seguiu para o atendimento da rede pública de saúde com fortes dores abdominais, quase sem fala, sem viço na face ou força pra caminhar, cerca de 15 quilos mais magra, e extremamente debilitada. Mediante seu estado, foi imediatamente pedida a sua internação.
Durante o tempo em que esteve na internação, realizou alguns outros exames para que a família, enfim, pudesse ter algum diagnóstico. Na terça-feira dia 09 de dezembro, a equipe médica do Hospital Municipal José de Carvalho Florence, mais conhecido como antigo Pronto-Socorro da Vila Industrial, tentou realizar uma colonoscopia em Maria, mas com o corpo já tão fragilizado ela não suportou concluir o exame.
Foram diagnosticados vários nódulos de diversos tamanhos na região do fígado e intestino, o que levou os médicos a falarem em cirurgia de emergência com autorização da família, uma vez que, de tão debilitada, talvez não resistisse aos procedimentos cirúrgicos.
Os dias de internação foram muito difíceis para Maria e para toda a família, primeiro porque, no início, a equipe de enfermagem não autorizou a presença de um acompanhante em função da idade da paciente (menos de 60 anos). E, segundo porque durante o horário de visitas pôde-se observar vária cenas de descaso e de despreparo por parte da administração, equipe de recepção, segurança, médicos e enfermagem do hospital.
Coisas como assistir uma enfermeira levar uma paciente, de cadeira de rodas, para realizar uma radiografia e, ao voltar para o leito, “estacionar” a cadeira ao lado da maca dizendo “sobe aí”. Outros episódios como machucados adquiridos durante o banho, alimentação inadequada sendo servida a uma paciente em estado gravíssimo de desnutrição, uma paciente com dificuldades de locomoção ficar por três horas apertando campainhas para receber um gole de água, a rispidez, acidez e total ausência de atenção da equipe de enfermagem às solicitações de ajuda dos familiares, no trato com a paciente durante os horários de visita.
Enfim, é triste imaginar que um ser humano em péssimas condições de saúde, debilitado física e psicologicamente, seja tratado com tanta indiferença por pessoas que deveriam lhe ser eternamente gratas por terem um emprego, uma função profissional e um salário obtido através desse trabalho.
É lamentável perceber que há uma total inversão de valores no momento em que funcionários da rede pública de saúde se acham no direito de diminuir a importância e o valor da vida de um cidadão que custeia o seu salário e que foi o responsável pelo financiamento da construção do prédio em que ele trabalha, bem como pela compra dos equipamentos que ele opera.
Sempre ouço dizer aos quatro ventos que São José dos Campos tem o melhor hospital do Vale do Paraíba, que é referência no tratamento disso e daquilo, que recebe pessoas de outras cidades para serem tratadas aqui, etc e tal….
Infelizmente, Maria não pôde confirmar a eficiência dessa super estrutura tão aplaudida pela atual administração pública da cidade, pois faleceu três dias após o diagnóstico tardio de sua doença.
Se houvesse o mínimo de curiosidade (e repare que eu nem disse interesse) por parte desses exímios profissionais da sáude em conhecer as necessidade de seus pacientes, talvez o diagnóstico de Maria pudesse ter sido descoberto 18 meses atrás, quando ela ainda podia caminhar e falar, quando ainda podia dizer o que sentia, quando ainda tinha forças para acreditar que a cura que tanto buscava era possível de se achar.
O mais curioso, embora eu esteja falando de câncer, uma doença tão avassaladora e cruel, é que nenhum dos sintomas apresentados por Maria era qualquer coisa impossível de avaliar ou de juntar as pistas. Por mais avançado ou recuado que estivesse, diagnosticar assim tão tarde uma doença como essa é tirar do paciente qualquer chance que ele tenha de escolher viver, de decidir lutar por sua saúde.
O objetivo dessa história real em forma de manifesto é fazer você pensar sobre como anda o atendimento público de saúde de São José dos Campos. É fazer você sentir curiosidade de entender o por que de haver tanta indiferença, desinteresse e despreparo para atender uma população que deveria ser tratada como a razão da existência dos sistemas de políticas públicas e sociais do município. Tomara que você sinta mesmo essa vontade de saber o que acontece dentro das unidades de atendimento da rede pública de saúde, ainda que por curiosidade.
Tomara que você tenha a chance de conhecer como funciona esse atendimento antes de precisar dele.
Voltando a minha pergunta, sobre o preço da sua vida, se estiver muito difícil de quantificar, posso fazer uma estimativa de quanto custa a morte.
Urna (Caixão) – R$380,00
Coroa de Flores – R$220,00
Taxa de serviços Estéticos (Necromaquiagem) – R$80,00
Taxa de Preparação do corpo – R$180,00
Velas, Véu, Edredon, Flores, Vestimenta e Translado – R$230,00
Isso se você for uma pessoa simples, sem muitas peculiaridades, o que nesse momento não seriam apenas detalhes, mas sim alguns cifrões a mais no seu orçamento de funeral.
Como você não poderá participar da escolha desses detalhes, cuide agora da sua vida para que o preço da morte não seja a maior preocupação daqueles que fazem alguma diferença nessa vida pra você.
Maria do Espírito Santo era minha tia.